Bicicletas públicas vs. espaço publicitário urbano

O Paul, do Bikesharing Blog, encontrou há tempos um artigo sobre a “febre” (boa, parece-me!) dos sistemas estilo Vélib e Bicing.

O autor do artigo na Newsweek fala sobre o funcionamento destes sistemas, em que muitos (e bem sucedidos, como o Vélib) acoplam o serviço de bikesharing com o de exploração de espaço publicitário nas cidades. O autor sugere ainda a possibilidade de, na verdade, as Câmaras Municipais estarem a perder dinheiro com esta opção. Ele pergunta se não seria mais vantajoso a Câmara Municipal separar as duas vertentes, como acontecerá agora em Hamburgo: a Câmara trata as concessões para a exploração do espaço publicitário (receitas) e para a gestão do sistema de bicicletas públicas (despesas) separadamente.

No caso do Vélib, usando os valores apresentados no texto do artigo da Newsweek, se o sistema custa 2500 € / bicicleta / ano, se contam ter 20 000 bicicletas, e se a JCDecaux espera um volume de vendas de publicidade no valor de 60 milhões € / ano, a Câmara de Paris estará a abdicar de mais de 10 milhões € de receitas por cada ano de contrato com a JCDecaux.

Claro que o trade-off é a Câmara não ter que ser especialista do mercado publicitário nem do negócio de aluguer das bicicletas, mas mesmo assim, é um caso que merece alguma análise, e cautelosa… Mais relevante ainda se torna quando sabemos que a Câmara Municipal de Lisboa pretende implementar na cidade um sistema de bicicletas públicas, num contexto de défice financeiro agravado…

Nota: A juntar-se à Clear Channel e à JCDecaux, surge agora a Cemusa também neste negócio (Bicincittá). Estas duas últimas empresas estão presentes em Portugal.

Passeio-manif de 20 de Jan: um flop inesperado

Pois é, o anunciado passeio-manifestação por maior respeito pelos ciclistas na estrada, organizado pelo Paulo Leite, não aconteceu. As poucas pessoas que estiveram no ponto de encontro definido mal devem ter chegado às duas dezenas. Os polícias que também lá estavam, para ir fazer escolta do aguardado “pelotão” eram quase em maior número que os participantes… Pior! O organizador não apareceu (e a desmobilização só aconteceu lá para as 12h30), não avisou ninguém (nomeadamente a polícia) e esteve incontactável pelo número de telemóvel que forneceu… Que bonito.

O dia estava esplendorosamente lindo, um sol fantástico, montes de gente a pedalar pela Marginal e até ao Parque das Nações. Dadas as condições climatéricas, a afluência de 100 pessoas na iniciativa similar anterior, e uma maior divulgação, não percebo a falta de participantes, muito menos do organizador…

Pelo menos sei que não deve ter acontecido nenhuma catástrofe ao Paulo, pois já esteve online em fóruns ontem à tarde… Agora resta aguardar uma explicação legítima a esta situação…

Da nossa parte (participámos a título pessoal) não foi perdido, démos um belo passeio de bicicleta e estivémos à conversa com amigos e algumas caras novas. E pudémos conhecer ao vivo e conversar um pouco com o Xiclista, com a Maria, e com o Paulo dos “100 dias de bicicleta em Lisboa”. 🙂 Foi uma bela manhã. 😉

E o acontecimento até teve direito a um “boneco” para a posteridade!

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Cortesia da Maria. 😉

UPDATE 1: Mistério resolvido, o Paulo explicou. Segundo ele, ele nunca chegou a confirmar o passeio, algo que eu não consegui “ler” naquelas mensagens. Peço (imensa!) desculpa se a minha má interpretação se propagou a outros (o que acho que se verificou). 🙁 Bom, ao menos a polícia também fez as mesmas assunções que eu, não fui a única!… 😛

Vai ser programado outro passeio para o meio de Fevereiro.

UPDATE 2: No Funchal, o passeio chegou a acontecer, e contou com quase 300 participantes.

Innovate or Die

Finalmente, o vencedor do concurso “Máquinas Movidas a Pedal” promovido pela Specialized foi anunciado. E o vencedor foi justamente o meu favorito, o Aquaduct – veículo de filtração móvel:

Não é excelente? 🙂

Outras invenções a que achei particular piada ou interesse foram o VeloDisco – um iate para terra movido a pedal, o Bicycle Ice Cream Maker – uma cena para fazer gelados em 10 minutos a pedalar, o Transformation Trike, e o Family Truckster – um quadriciclo de quatro lugares reclinados, costas-com-costas.

Uma cena que eu gostava de ter era algo assim:

Para poder fazer algum exercício físico enquanto estou a ver os mails, etc, por exemplo, criando em simultâneo a energia para o laptop trabalhar. 🙂 No entanto, queria algo mais user-friendly, por isso queria isto mas em versão reclinada. 😉 Uma das candidaturas ao concurso está bastante próximo disto, mas é mais uma semi-recumbent, eu queria mesmo uma full-recumbent. 😛

“A oficina de bicicletas”

A oficina de bicicletas do Mestre Augusto fica na Chamusca numa rua histórica onde trabalharam há muitos anos alguns dos maiores Mestres da terra na arte do ferro, da ourivesaria e do comércio puro e duro do vinho, das fazendas e da mercearia. Hoje já todos passaram à história. Depois de morrerem os homens, transformaram-se os edifícios e adaptaram-se a outras áreas de negócio ou pura e simplesmente fecharam portas.

No número 42 da Rua Câmara Pestana, a oficina de bicicletas do Mestre Augusto continua a ser um local de trabalho diário. Lá tudo ainda é como há meio século atrás. O trabalho pode ser feito na hora, ninguém precisa de pagar adiantado, os preços do serviço prestado estão ao nível do que se praticava no tempo da outra senhora e o atendimento é feito à porta, já que o espaço da oficina mal dá para o Mestre pendurar duas bicicletas ao mesmo tempo.

Quem passa todos os dias na Rua Câmara Pestana nem dá pela presença do Mestre Augusto, enfiado naquele rectângulo de um rés-do-chão de uma casa igualmente quase centenária. O Mestre Augusto tem 86 anos e todos os dias cumpre rigorosamente um horário de trabalho normal, com o espírito de quem está a iniciar um negócio e precisa de ser útil à sociedade e de satisfazer o cliente para que ele volte da próxima vez.

Um dia destes, na deslocação que faz de casa para o trabalho e do trabalho para casa, montado numa velha pasteleira, alguém se descuidou e abriu a porta do carro já estacionado precisamente no momento em que o Mestre Augusto pedalava a caminho da oficina. Deu um trambolhão de se lhe tirar o chapéu e temeu-se o pior. Mas as mazelas de uma queda aparatosa de um homem de 86 anos podem parecer cenas de um filme de Manuel de Oliveira se observadas à luz do destino e da arte de viver com as raízes bem presas ao chão. Como os ossos não se partiram o Mestre Augusto assim como caiu se levantou, e quanto a ferimentos não há nada que o mercúrio e as sulfamidas não resolvam num corpo habituado aos rigores do trabalho de uma oficina.

É muito normal vê-lo a trabalhar quase às escuras ao fim da tarde porque ainda guarda o velho hábito de poupar na luz eléctrica. Quem for bom observador vai reparar que àquela porta ainda se concentra muita gente a falar da vidinha e das novidades da vila.

Quer saber quem foi o último riquinho da terra a passar um cheque sem cobertura? O último caçador a errar o alvo? O último pescador a cair ao rio com o peso da cana de pesca? O ultimo barbudo a empenhar as barbas? O último careca a perder o capuchinho? Então devolva a bicicleta à sua vida e ganha o direito de partilhar a oficina de um dos últimos Mestres da Terra Branca na arte de trabalhar… para aquecer.

Fonte: O Mirante, artigo de JAE

Aqui em Porto Salvo também há uma oficina assim, minúscula e antiga. Bom, o mecânico não tem ainda sequer perto de 86 anos, mas já me afinava os travões e as mudanças de borla quando eu era miúda (e ainda me enchia os pneus de vez em quando), por isso a oficina já existe pelo menos há 15-20 anos. Este tipo de oficina de bairro (e sem estar associada a uma loja de bicicletas) já é uma raridade… 🙁